A resistência da gonorreia a antibióticos está em ascensão e são necessários novos medicamentos

Extraído de: www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5456:a-res...

Dados de 77 países mostram que a resistência aos antibióticos está tornando a gonorreia – uma infecção comum transmitida sexualmente – muito mais difícil e, às vezes, impossível de tratar. “As bactérias que causam gonorreia são particularmente inteligentes. Toda vez que usamos uma nova classe de antibióticos para tratar a infecção, as bactérias evoluem para resistir a eles”, disse Teodora Wi, médica, da área de reprodução humana, da Organização Mundial da Saúde (OMS).

A OMS registra resistência generalizada a antibióticos mais antigos e mais baratos. Alguns países – particularmente os de alta renda, onde a vigilância é melhor – estão encontrando casos de infecção que não podem ser tratados por nenhum antibiótico conhecido.

“Esses casos podem ser apenas a ponta do iceberg, uma vez que faltam sistemas para diagnosticar e registrar infecções intratáveis em países de baixa renda, onde a gonorreia é mais comum”, acrescenta Wi.

A cada ano, estima-se que 78 milhões de pessoas sejam infectadas com gonorreia. A gonorreia pode infectar genitais, reto e garganta. As complicações da gonorreia afetam desproporcionalmente as mulheres, incluindo doença inflamatória pélvica, gravidez ectópica e infertilidade, bem como um risco maior de HIV.

Contribuem para esse aumento a diminuição do uso do preservativo, o crescimento da urbanização e das viagens, baixas taxas de detecção de infecção e tratamento inadequado ou falho.

Monitoramento de resistência a medicamentos

O programa mundial de vigilância antimicrobiana gonocócica da OMS (WHO GASP, em inglês) monitora as tendências da gonorreia resistente aos medicamentos. Os dados do WHO GASP de 2009 a 2014 encontram resistência generalizada à ciprofloxacina [97% dos países que relataram dados naquele período encontraram cepas resistentes a drogas]; aumento da resistência à azitromicina [81%]; e o surgimento de resistência ao atual tratamento de último recurso: cefalosporinas de espectro prolongado (ESC, na sigla) cefixima oral ou ceftriaxona injetável [66%].

Atualmente, na maioria dos países, as cefalosporinas de espectro prolongado são o único antibiótico que permanece efetivo no tratamento da gonorreia. Mas a resistência à cefixima – e mais raramente à ceftriaxona – já foi relatada em mais de 50 países. Como resultado, a OMS emitiu recomendações atualizadas de tratamento global em 2016, aconselhando os médicos a darem dois antibióticos: ceftriaxona e azitromicina.

Desenvolvimento de novos medicamentos

A pesquisa e desenvolvimento (P&D) para a gonorreia é relativamente baixa, com apenas três novos candidatos a drogas em vários estágios de desenvolvimento clínico: solitromicina, para a qual um estudo de fase III foi concluído recentemente; zoliflodacina, que completou um teste de fase II; e gepotidacin, que também completou um teste de fase II.

O desenvolvimento de novos antibióticos não é muito atraente para empresas farmacêuticas comerciais. Os tratamentos são feitos por períodos curtos de tempo (ao contrário dos medicamentos para doenças crônicas) e se tornam menos efetivos à medida que a resistência se desenvolve, o que significa que o fornecimento de novos medicamentos precisa ser reabastecido constantemente.

A Iniciativa de Drogas para Doenças Negligenciadas (DNDi, na sigla em inglês) e a OMS lançaram uma Parceria Global de Pesquisa e Desenvolvimento de Antibióticos (GARDP, na sigla em inglês), uma organização de pesquisa e desenvolvimento sem fins lucrativos, hospedada pela DNDi, para dar resposta a esse problema. A missão da GARDP é desenvolver novos tratamentos antibióticos e promover o uso adequado, para que permaneçam eficazes durante o maior tempo possível, bem como garantir o acesso a todos os necessitados. Uma das principais prioridades da GARDP é o desenvolvimento de novos tratamentos antibióticos para a gonorreia.

“Para atender à necessidade urgente de novos tratamentos para a gonorreia, precisamos urgentemente aproveitar as oportunidades que temos com os medicamentos existentes e os candidatos. Em curto prazo, buscamos acelerar o desenvolvimento e a introdução de pelo menos um desses medicamentos, e avaliaremos o possível desenvolvimento de tratamentos combinados para uso em saúde pública”, afirmou Manica Balasegaram, diretora do GARDP. “Qualquer novo tratamento desenvolvido deve ser acessível a todas as pessoas que o necessitem, assegurando que seja usado adequadamente, de modo que a resistência aos medicamentos seja retardada tanto quanto possível”.

Prevenção da gonorreia

A gonorreia pode ser prevenida por meio de um comportamento sexual mais seguro, em particular o uso consistente e correto do preservativo. A informação, a educação e a comunicação podem promover e tonar possível práticas sexuais mais seguras, melhorar a capacidade das pessoas de reconhecer os sintomas da gonorreia e outras infecções sexualmente transmissíveis e aumentar a probabilidade de procurarem cuidados. Hoje, a falta de conscientização pública, falta de treinamento de profissionais de saúde e estigma em torno de infecções sexualmente transmissíveis permanecem como barreiras para um uso maior e mais efetivo dessas intervenções.

Não há testes de diagnóstico economicamente acessíveis, rápidos e diagnósticos point-of-care para gonorreia. Muitas pessoas que são infectadas com gonorreia não apresentam sintomas, então não são diagnosticadas nem tratadas. Por outro lado, no entanto, quando os pacientes apresentam sintomas, como a descarga da uretra ou da vagina, os médicos geralmente presumem que é gonorreia e prescrevem antibióticos – mesmo que as pessoas talvez estejam sofrendo de outro tipo de infecção. O uso geral inapropriado de antibióticos aumenta o desenvolvimento da resistência da gonorreia aos antibióticos, bem como de outras doenças bacterianas.

“Para controlar a gonorreia, precisamos de novas ferramentas e sistemas para melhor prevenção, tratamento, diagnóstico precoce, além de rastreamento e registro mais completos de novas infecções, uso de antibióticos, resistência e falhas no tratamento”, disse Marc Sprenger, diretor de Resistência Antimicrobiana da OMS. “Especificamente, precisamos de novos antibióticos, bem como testes de diagnóstico rápidos, precisos e de diagnósticos point-of-care – idealmente, aqueles que podem prever quais antibióticos irão funcionar naquela infecção particular – e um prazo mais longo, uma vacina para prevenir a gonorreia”.

Nota aos editores

Este comunicado se baseia em dois artigos incluídos em um suplemento especial da PLOS Medicine, que será publicado antes do Congresso Mundial de IST e HIV (www.stihivrio2017.com) no Rio de Janeiro, Brasil, de 9 a 12 de julho de 2017:



-Resistência antimicrobiana em Neisseria gonorrhoeae: vigilância global e um apelo à ação colaborativa internacional (autoar principal: Teodora Wi, OMS)

-Gonorreia multirresistente: um roteiro de pesquisa e desenvolvimento para descobrir novos medicamentos (autora principal: Emilie Alirol, GARDP/DNDi)

No Congresso Mundial IST e HIV, a OMS organizará uma sessão sobre “Combate à resistência antimicrobiana em Neisseria gonorrhoeae: necessidade de uma abordagem abrangente e colaborativa”.

Para mais informações sobre a Parceria Global de Pesquisa e Desenvolvimento de Antibióticos (GARDP): www.gardp.org

Para mais informações sobre o Plano de Ação Global sobre Resistência Antimicrobiana: www.who.int/antimicrobial-resistance/global-action-plan

Links para os artigos:

http://journals.plos.org/plosmedicine/article?id=10.1371/journal.pmed.100234

https://www.gardp.org/wp-content/uploads/2017/07/Alirol_PLOS_multidrug-resistant_gonorrhea_2017.pdf

Gravação da coletiva de imprensa virtual:

http://terrance.who.int/mediacentre/presser/WHO-RUSH_Antibiotic-resistant_gonorrhoea_VPC_06JUL2017.mp3